Mind Summit 2026: bem-estar, IA e saúde mental no trabalho
O trabalho não está adoecendo sozinho O que o Mind Summit 2026 me fez pensar sobre bem-estar corporativo, IA, liderança, relações, futuro do trabalho e saúde mental no trabalho Mind Summit 2026: um mergulho em bem-estar, liderança e futuro do trabalho. Passei pelo Mind Summit 2026 com o radar ligado para uma pergunta que tem aparecido cada vez mais nas conversas sobre futuro do trabalho: quando falamos de saúde mental e bem-estar nas empresas, estamos realmente cuidando das pessoas ou apenas ensinando-as a sobreviver melhor a ambientes que continuam adoecendo? Depois de uma sequência intensa de palestras sobre felicidade, inteligência artificial, segurança psicológica, confiança, relações, liderança, autorregulação, burnout e desenho do trabalho, uma ideia começou a conectar praticamente tudo: talvez bem-estar no trabalho seja muito menos sobre consertar indivíduos e muito mais sobre criar condições para que pessoas e trabalho funcionem melhor juntos. Pessoas felizes por causa do trabalho, e não apesar do trabalho. Bem-estar no trabalho não é um assunto “fofo” do RH A discussão começou com uma provocação importante: por que ainda tratamos o bem-estar como uma pauta periférica de RH se ele atravessa a forma como pensamos, decidimos, colaboramos e performamos? Adriana Drulla trouxe a ideia da esteira hedônica: conquistamos a promoção, o bônus ou a próxima meta e, pouco depois, a sensação de chegada se reorganiza. A régua anda. Quando autoestima e valor pessoal ficam condicionados ao desempenho, o esforço pode até aumentar, mas, junto dele, podem vir padrões cada vez mais elevados e autoataque. A autocompaixão, a partir do trabalho de Kristin Neff, aparece então não como complacência, mas como outra maneira de sustentar o desempenho sem transformar a própria mente em um chefe hostil. A provocação da autocompaixão: chegar até aqui apesar da pressão não significa que a pressão seja o melhor combustível. Sob ameaça, nosso cérebro tende a recorrer mais ao automático e à reatividade. Nesse sentido, bem-estar não é necessariamente o prêmio entregue depois de um bom trabalho. Ele pode ser parte das condições que permitem que um bom trabalho aconteça. Jan-Emmanuel De Neve: bem-estar no trabalho também é infraestrutura de performance Nas palestras e masterclasses de Jan-Emmanuel De Neve, a discussão ganhou uma camada de negócio. Os estudos apresentados conectavam bem-estar a produtividade, vendas, atração de talentos e permanência. No estudo apresentado com 1.800 profissionais de 11 call centers da British Telecom, felicidade apareceu associada a melhor desempenho em vendas. Em um estudo com profissionais de call centers da British Telecom, por exemplo, os pesquisadores encontraram associação entre maiores níveis de felicidade e melhor desempenho comercial. O ponto mais interessante não é reduzir a discussão a “pessoas felizes vendem mais”, mas perguntar se o bem-estar faz parte da infraestrutura cognitiva, emocional e social que permite trabalhar melhor. Outro conjunto de dados apresentado durante o evento relacionava melhores indicadores de bem-estar a avaliações posteriores mais positivas de performance. E o case da Natura reforçou a mesma mudança de lente: tratar o bem-estar como algo mensurável, multidimensional e conectado à experiência geral de vida. No case Natura, o bem-estar foi relacionado à performance futura, reforçando a ideia de que cuidar da experiência humana e do negócio não são agendas opostas. IA no trabalho: automatizar pessoas ou aumentar pessoas? Foi aí que De Neve conectou bem-estar à inteligência artificial. Para ele, uma das escolhas centrais desta revolução está entre automação e augmentation. Na automação, a pergunta tende a ser: quanto de custo conseguimos reduzir com tecnologia? Na lógica de augmentation, a pergunta muda: quanto conseguimos ampliar a capacidade das pessoas se investirmos nelas na mesma velocidade em que investimos em IA? Automação e augmentation partem de perguntas diferentes: cortar custos ou ampliar capacidade e crescimento. Essa diferença muda o papel do colaborador. Em vez de simplesmente assistir à transformação acontecer, a organização pode investir em upskilling para que as pessoas se sintam pilotos, e não passageiras. Os exemplos apresentados incluíram empresas que escolheram requalificar pessoas diante da automação. No caso da IKEA citado no evento, profissionais impactados pela automação de parte do atendimento foram capacitados para assumir atividades mais consultivas, como design de interiores. “A pergunta não é apenas o que a IA consegue fazer. É o que queremos que os humanos possam fazer melhor com ela.” Economizamos tempo com IA. E agora? Uma das pesquisas apresentadas indicava que trabalhadores relatam economizar, em média, uma a duas horas por dia com IA. Parece uma ótima notícia. Até chegar à segunda pergunta: o que estamos fazendo com esse tempo? A provocação apresentada por De Neve: o tempo economizado pela IA está voltando para mais tarefas ou abrindo espaço para trabalhos de maior valor? Entre os usos mais frequentes apareciam mais tarefas, mais projetos e mais atividades parecidas com as que já fazíamos. Enquanto isso, atividades como passar mais tempo com clientes, colaborar entre equipes, desenvolver expertise e realizar trabalhos mais criativos e inovadores apareciam menos. Existe, portanto, o risco de usarmos uma tecnologia revolucionária para conseguir… encher a agenda mais rápido. Talvez produtividade com IA não devesse significar simplesmente colocar mais coisas dentro das mesmas oito horas. O ganho pode estar justamente em devolver parte desse tempo àquilo que exige julgamento, criatividade, conversa, vínculo e capacidade de navegar por problemas ambíguos. Do workplace wellbeing para o worldwide wellbeing: bem-estar além do escritório Outra ideia forte de De Neve foi sair de uma visão estreita de workplace wellbeing para olhar o worldwide wellbeing. A fronteira entre “vida” e “trabalho” é muito mais porosa do que nossas pesquisas organizacionais costumam admitir. O trabalho atravessa identidade, relações, segurança financeira, significado e satisfação com a vida. E tudo isso volta para o trabalho. É uma via de mão dupla. No case Natura, o bem-estar foi observado de forma multidimensional, olhando para a pessoa além da função. Por isso, gostei de uma escolha de linguagem apresentada no case da Natura: falar em permanência, e não apenas retenção. Retenção pergunta: “como fazemos essa pessoa não ir embora?”. Permanência permite uma pergunta melhor: “o que faz essa pessoa querer ficar?” Na