Neste cenário digital onde tudo é rápido, replicável e cada vez mais automatizado, o conceito de authentic influence ganha ainda mais força. este é um tema muito importante e discutível atualmente. afinal, manter a autenticidade diante das possibilidades oferecidas pela inteligência artificial, sem deixar de aproveitar as inúmeras oportunidades disponíveis, é um ato desafiador — e cada vez mais necessário.
E nesse caso, ética e transparência estão em questão? E como fica o valor da experiência humana? Como navegar neste ecossistema digital sem perder a autenticidade?
Estas são algumas das várias interrogações que surgiram quando comecei a angulação do assunto deste artigo.
E o que é authentic influence e qual a sua importância na era digital?
Authentic influence é a capacidade de influenciar de maneira genuína, fiel a si mesmo, em primeiro plano, diante das inúmeras oportunidades e desafios no contexto das IAs, principalmente, sem dar-se a chance de ser tendencioso ao se tornar um escravo digital.
E surgem mais perguntas:
Quem não está de certo modo influenciado pela tecnologia e pelas IAs? Como ser autêntico em tempos digitais? E por que o termo authentic influence é importante em um mundo tecnológico?
É inegável, com raras exceções, que o mundo está aos pés das tecnologias e das IAs. E de uma forma ou de outra, em maior ou menor grau, cada indivíduo acaba sendo tocado, influenciado e se rendendo a elas.
Ser autêntico é um fator que ressoa em todas as nossas interações, que são humanas acima de tudo.
Quero dizer com isso que ser um authentic influence é fazer com que as nossas ações e produções, ainda que suportadas pela tecnologia, ressoem princípios e valores, com consistência e veracidade, uma vez que nossos comportamentos e escolhas influenciam nossa visão de mundo e o modo como interagimos com as pessoas em todos os ambientes.
Não podemos nos esquecer de que as conexões humanas são insubstituíveis
O toque humano, a personalização e a atenção aos detalhes fazem toda a diferença, não podem ser delegados a uma IA. Vivemos em um universo tecnológico, cada vez mais dominado pelas IAs, e se não mantivermos a nossa autenticidade, ela acabará se tornando uma condição de quase escassez.
A automação desafia a autenticidade e as interações humanas
Reduz erros? Otimiza o tempo com mais resultado? Sim, a automação faz isso com uma incrível rapidez, sem se sentir fatigada ao final do dia, mesmo desenvolvendo trabalhos exaustivamente repetitivos(pelo menos para humanos).
A eficiência com que as máquinas realizam essas tarefas abre novos horizontes para o potencial humano.
O Fórum Econômico Mundial (WEF) publicou recentemente que a IA pode ser responsável pela redução dos salários e da disponibilidade de empregos, que as ferramentas de automação podem substituir milhões de empregos, especialmente os administrativos. Contudo, em seu relatório “Futuro dos Empregos”, aponta que a solução está numa espécie de simbiose de inteligência entre humanos e máquinas e não no descarte ou desconsideração da IA.
Para o WEF, a Inteligência Autêntica aqui seria uma nova maneira de pensar sobre como podemos nutrir e desenvolver habilidades humanas que possam complementar e aprimorar a IA para garantir que a engenhosidade humana permaneça na vanguarda do progresso. Sendo a IA uma ferramenta para aprimorar as capacidades humanas, o seu pensamento crítico e o controle sobre a tecnologia.
Olhando por esse prisma, a interação entre máquinas e humanos não deve ser vista como ameaça. Mas como uma oportunidade para criar e experienciar essa sinergia e beneficiar-se dela. Podemos dizer que esta é uma relação potencialmente revolucionária, em que a complementaridade é a chave de um processo que nos desafia a crescer e valorizar habilidades que são exclusivamente humanas.
A automação está se expandindo em vários segmentos
Sabemos que muitas áreas estão sendo cobertas pela automação, que ela tem assumido funções repetitivas, atividades mais mecânicas, com menos erros, menor custo operacional e maior produtividade – assistentes virtuais em manufaturas, logística, atendimento ao cliente; algoritmos que redigem, analisam, revisam, reformulam tarefas tradicionais, entre tantas outras possibilidades. Mas esses mesmos colegas de trabalho digitais abrem espaço para que humanos se dediquem a tarefas menos burocráticas, e muitas vezes maçantes, e desenvolvam a criatividade com mais estratégia e inovação.
Por tudo isso, embora a possibilidade de nos transformarmos numa versão idealizada de quem somos seja tão sedutora, não dá para abrir mão da autenticidade. Ela é uma das características mais preciosas que possuímos. É o que verdadeiramente nos une uns aos outros.
A nossa autenticidade forma a base da confiança mútua. A natureza humana abriga uma complexidade de sentimentos, experiências, expectativas e perspectivas únicas e, claro, um rol de imperfeições, é justamente isso que torna o ser humano fascinante. E esse fascínio ganha nova dimensão e se torna ainda mais instigante quando toda essa autenticidade se manifesta e se mantém em um mundo cada vez mais automatizado e influenciado pelas IAs, desafiando-nos a preservar nossa essência em meio a tantas transformações.
IA x Autenticidade: ética e integridade
Você já ouviu falar em Teoria da Internet Morta (Dead Internet Theory)?
Como publicado pelo Portal The Guardian, a teoria da internet morta propõe que os bots agora escrevem a maior parte do conteúdo da internet. Antes (por volta de 2014-21) os algoritmos levavam as pessoas a agirem como robôs, mas agora (a partir de 2024), os robôs estão agindo (postando) como pessoas, sem sua humanidade logicamente, mas o fato é que a IA tem dominado o universo digital. Aliás, como reforçado pelo MIT Technology Review, é “uma realidade digital cuja autenticidade da interação humana na internet é profundamente questionada”.
Até que ponto aprimorar performances é válido?
A Época Negócios destacou em um artigo o uso de IAs em produções cinematográficas, com foco nos filmes “The Brutalist” (“O Brutalista”) e “Emilia Pérez”, para aprimorar as performances dos seus protagonistas.
A matéria originalmente publicada pelo The Guardian conta que a utilização de clonagem de voz e amplitude de registro vocal em ambos os filmes impactou a opinião dos críticos. Também levantou questões sobre autenticidade e outras discussões como diversidade e representatividade.
Claro que há várias produções produzidas com total apoio da tecnologia. Acredito que a questão aí está na manipulação de vozes e até imagens e que espaço restou para a genuína e autêntica expressão dos atores.
Esses dois filmes – mesmo enfrentando as polêmicas sobre o uso de IA, foram indicados e competiram em várias categorias, mas nenhum levou a estatueta em nenhuma delas.
The Brutalist | Official Trailer HD | A24
Independentemente disso, pare e pense comigo: será que o uso da tecnologia para melhorar performances valeu o risco de perder (além da estatueta) aquilo que torna a arte única e autêntica?
A essência da interpretação. O talento e a singularidade dos atores. A alma da performance…
E você, o que pensa a respeito?
Quer ver mais um ponto crítico e relevante no cenário atual? O uso de IA na produção acadêmica.
Agiliza o processo, escreve, revisa…, mas como fica a questão da autenticidade na produção científica do conhecimento, garantindo a originalidade da pesquisa?
Toda a facilidade proporcionada pela IA, sem dúvida nenhuma otimiza o processo produtivo. Mas e a genuinidade das ideias, da pesquisa como um todo, a exposição de conceitos e aplicação prática, a análise, a discussão dos resultados. Como fica o fruto da investigação, o pensamento crítico, a compilação das informações pelo pesquisador – a sua originalidade, a sua autenticidade em relação ao uso ético da IA; a propriedade intelectual e a responsabilidade sobre o conteúdo gerado.
Como educador, penso que a preocupação aqui centra-se em saber o seguinte:
Se a tecnologia pode escrever e analisar, qual é o papel do esforço intelectual na busca por respostas que realmente façam sentido para nós e para o mundo?
Como valorizar a originalidade que nasce da própria curiosidade humana?
E como fica o valor intrínseco da autenticidade e da originalidade na busca por conhecimento em um mundo de Inteligência Artificial?
O futuro da autenticidade em convivência com a IA
No SXSW 2025 houve uma troca de experiências muito ricas e debates sobre as dinâmicas digitais, IAs, conexões e autenticidade na comunicação, ressaltando os valores humanos no ecossistema digital.
E como equilibrar a tecnologia com os valores humanos? Como educar e preparar pessoas para um futuro digital autêntico?
Conforme mencionado pelo Portal CNN Brasil, “as relações humanas continuam sendo fundamentais em um mundo cada vez mais digital. […] embora a inteligência artificial continue a avançar e se integrar cada vez mais em nossas vidas, os valores humanos, medos e conexões emocionais permanecem no centro das interações significativas.” Com isso, o SXSW 2025 frisou a “ideia de que o equilíbrio entre inovação tecnológica e essência humana é fundamental para o futuro das comunicações e relações interpessoais”.
Sobre autenticidade, o Portal ressaltou: “o caso de Simone Biles, atleta que enfrentou um ‘apagão’ durante as Olimpíadas de Tóquio. A forma como sua história foi compartilhada, mostrando a perspectiva da atleta e sua vulnerabilidade, [e] destacou a importância da autenticidade em um mundo onde as redes sociais frequentemente retratam apenas perfeição.”
Conclusão
À medida que navegamos nesse mundo interligado pela inteligência artificial, a autenticidade humana se revela como um pilar essencial para preservar a nossa essência. É aí que a interação entre humanos e máquinas transforma-se em uma jornada de coevolução, e cada passo à frente traz potenciais desafios e oportunidades. Esta é uma relação que não mina a nossa autenticidade, mas se fixa como uma plataforma robusta para a expressão criativa e inovadora sem precedentes.
Imaginar um futuro e ver a tecnologia celebrando e não sufocando a identidade humana é um exercício puro de responsabilidade. E para alcançar esse tal futuro, é imprescindível alimentar valores éticos sólidos e preservar a transparência em nossas interações digitais. É assim que podemos garantir que o progresso tecnológico não apenas respeite, mas também enriqueça a experiência humana.
Mas será que estamos prontos para esse desafio do pioneirismo ético nesse universo digital?
A tecnologia avança e não vai parar – as máquinas continuarão aprendendo e se adaptando. Não há retrocesso. Por isso, cabe a cada um de nós refletir sobre como nossos valores e ações moldarão o futuro e a autenticidade é um fator humano.
Nessa convivência entre IA e humanidade, como cada um de nós será lembrado? Como você será lembrado(a)?
Pense em quais legados você deseja deixar e quais papéis você se dispõe a assumir – com a devida autenticidade!
Referências
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CNN BRASIL. SXSW 2025 mostra [como os] valores humanos se destacam no mundo digital. 12/03/2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/tecnologia/sxsw-2025-mostra-com-valores-humanos-se-destacam-no-mundo-digital/
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LABATE, A. Uso de IA nos filmes ‘O Brutalista’ e ‘Emilia Pérez’ gera debate sobre autenticidade e ética no Oscar. ÉPOCA NEGÓCIOS, 13/02/2025. Disponível em: https://epocanegocios.globo.com/inteligencia-artificial/noticia/2025/02/ia-inteligencia-artificial-filmes-do-oscar-brutalist-emilia-perez.ghtml
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